Agosto 08 2010

Hoje numa esplanada à beira mar,ao ler parte de um livro "As Mentiras que os Homens Contam" de Luis Fernando Ver!ssimo, reconheci-me num excerto que rezava assim:

 

À primeira namorada, mentíamos para preservar o nosso orgulho, certo?

-não, não, eu estava passando por acaso. Você acha que eu fico rondando a sua casa o dia inteiro, é?

Mas o que vocês pensariam se nós dissessemos: « Sim, sim, não posso ficar longe de você o dia inteiro, aqueles telefonemas que você atende e ninguém fala, sou eu! Vamos nos casar ! Eu sei que tenho só 12 anos e você tem 11, mas temos que nos casar, senão eu morro !»? Vocês se assustariam, claro. A Paixão nessa idade pode ser um sumidouro. Mentíamos para nos protegermos do sumidouro.

Outras namoradas outras mentiras.

-Eu só quero ver, juro. Não vou tocar

Vocês não queriam ser tocadas, mas ao mesmo tempo se decepcionavam se a gente nem tentasse. Nem desse a vocês a oportunidade de afastar a nossa mão, indignadas. Ou de descobrir como era tocada.

Namorar - pelo menos no meu tempo, a Renascença - era a uma lenta conquista de territórios hóstis, como a dos desbravadores do Novo Mundo. Avancàvamos no desconhecido, centímetro a centímetro, mentira a mentira.

 -Pode mas só até aqui

 -Está bem. Não passo daí.

 -Jura?

 -Juro.

 -Você passou! Você mentiu!

 -Me distraí !

  ´Dávamos a vocês todos os álibis, todas as oportunidades para dizer depois que tudo acontecera devido à nossa calhordice e não à vontade como vocês também sentiam. Não mentíamos a vocês, mentìamos por vocês. Os verdadeiros cavalheiros eram os que enganavam as mulheres.  Os calhordas diziam, abjetamente,  a verdade. Não faziam o que juravam que não iam fazer, transferindo toda a iniciativa a vocês.

    É ou não é?

    Mas isso tudo mudou, desgraçadamente bem quando eu deixei para trás as tentações do mundo e entrei para uma ordem (a dos monómagos). A revolução sexual, que um dia ainda vai ser comemorada como a Revolução Francesa, com a invenção da pilula anticoncepcional correspondendo à queda da Bastilha e o fim dos sutiãs,ao fim da monarquia - e o termo sans culotte, claro, adquirindo novo significado -, tornou o relacionamento entre homens e mulheres mais franco e desobrigou os homens de mentir para as mulheres para salvar a honra delas. Aliás,  dizem que a coisa virou de tal maneira que hoje a mentira mais comum dita pelos homens é « Esta noite não, querida, estou com dôr de cabeça».  Não sei. Mas continuamos mentindo a vocês para o bem de vocês. 

 

(Excerto do livro de Luis Fernando Verrissimo, "As Mentiras que os Homens Contam")

publicado por severino às 22:34

Rosinda também penso assim! Eu lembro todo aquele mistério, aquela fantasia que nos marca tão profundamente, pelos menos a mim, que ainda hoje recordo, as paixões do tempo de escola. Creio que no meu caso foram assentuados pele perda da minha mãe nessa idade.
Conservo uma amiga desses tempos que por força de mudança de residência dos seus pais, nos separámos no auje das nossas paixões de primeiro namoro. Voltei a encontrá-la passadas muitas décadas e nem calcula o que temos recordado desses tempos. É viuva, vive com os filhos e os netos, numa serenidade e paz, num semblante tão harmonioso, que suplanta toda a imagem que me predurou durante essas décadas. Conserva toda a sua fisionomia gaiata, apesar dos seus cabelos brancos que lhe dão uma graça infinita. Já tive oportunidade de expressar neste blog muito do que ela representou para mim ao longo da vida. Sinto-a como de minha familia e de vez enquando encontramo-nos, casualmente, não pretendendo perturbar-lhe o seu mundo harmonioso onde parece tão feliz. Vejo no seu sorriso franco e simpático uma alegria de viver que me deixa feliz.
Como vê, ainda hoje sou marcado pelas vivência desses tempos, por isso me encontrei, incluido nalguns dos episódios deste excerto do livro que citei.


Um abraço
j/severino
severino a 9 de Agosto de 2010 às 10:36

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